Redução de meta de inflação para 2018 pode melhorar expectativas
Depois da confirmação do presidente do Banco Central (BC), Ilan Goldfajn, de que não trabalhará com uma meta ajustada para 2017, o mercado espera a confirmação, pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), do objetivo a ser perseguido para 2018. Sobre esse alvo, Ilan não deu qualquer pista. Disse apenas que, definida a meta, "a política monetária será calibrada para alcançá-la". O CMN se reúne hoje.
Economistas ouvidos pelo Valor acreditam que é mais provável que a meta seja mantida nos atuais 4,5%, com o intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, o mesmo definido para 2017. Mas não descartam a chance de uma redução do objetivo, para 4% ou mesmo para 4,25%.
Além de dar mais credibilidade à política monetária, a definição de uma meta mais baixa colocaria o país em posição mais alinhada aos pares que também adotam o regime de metas. No México e no Chile, o alvo é de 3% e o Peru mira os 2%, todos com intervalos de tolerância de um ponto percentual, enquanto a Colômbia tem como meta deixar a inflação 2% e 4%. "Acho que seria oportuno baixar a meta de 2018. Como esse novo BC (e o governo) está mostrando um maior compromisso com o que 'deveria ser feito', as chances de mudarem a meta para 4,25% ou 4% são significativas", afirma o economista-chefe da Garde Asset Management, Daniel Weeks.
O economista da Icatu Vanguarda, Rodrigo Alves Melo, considera que a manutenção da meta em 4,5% para 2018 é o mais provável, mas ele vê alguma chance de haver uma mudança para 4,25% ou para 4%. Essa alteração, afirma, melhoraria as perspectivas para a inflação, com efeito sobre os juros mais longos e, consequentemente, alívio para os custos de financiamento e melhora das condições de "valuation" das empresas. Mas ele reconhece que mudar a meta de inflação de 2018 para 4% sem ter ainda certeza de que o BC cumprirá a meta para 2017, de 4,5%, pode não ser "muito crível". "Acho que ainda é cedo para reduzir a meta. Temos de tirar da memória os anos de inflação acima do centro da meta. É preciso corrigir isso primeiro."
O superintendente do Departamento Econômico do Citi Brasil, Marcelo Kfoury, também considera que a redução da meta só deve ocorrer quando a inflação já estiver em 4,5%. Assim, seria mais adequado agora reduzir a banda de tolerância. O CMN também poderia adotar metas de inflação para períodos inferiores a um ano.
Solange Srour, economista-chefe da Arx Investimentos, defende que a redução da meta para 2018 pode provocar efeitos positivos sobre as expectativas para 2017. "Acho que o BC dificilmente vai conseguir entregar a inflação na meta no ano que vem, mas uma mudança da meta pode contribuir para a queda das expectativas e ajudar a inflação a ficar mais próxima de 4,5% em 2017", afirma.
Para Flávio Serrano, economista sênior do Haitong Brasil, uma meta de inflação mais baixa ajudaria no crescimento econômico no médio e longo prazos. "A volatilidade da inflação está associada ao seu patamar. Portanto, é importante que o mercado confie que o BC está perseguindo a meta de inflação e uma meta mais baixa", diz.
Ainda assim, ele acredita que o BC deve esperar mais um pouco, porque pode haver choque importante dos preços dos alimentos ainda neste ano, o que vai piorar a inflação corrente e a inércia para 2017. "Acho que vão preferir ter uma visão melhor do quadro, colher mais vitórias na inflação para então, posteriormente, trabalhar com uma meta mais baixa."
Outro contraponto à ideia de redução da meta é o efeito que essa mudança traria sobre a atividade. "Se o CMN reduzir a meta, a Selic não pode cair este ano, talvez nem no primeiro semestre de 2017", afirma o economista-chefe da Mauá Capital, Alexandre de Ázara. "O custo sobre o produto seria muito alto", afirma o economista, para quem essa alteração poderia ocorrer daqui dois ou três anos, quando a economia estiver já num processo de recuperação.
Uma redução da meta para 2018, segundo o economista-chefe do Banco Safra, Carlos Kawall, poderia levar o BC a postergar o corte da Selic para o ano que vem, mantendo a taxa básica estável em 14,25% até dezembro para garantir a convergência da inflação à meta até 2018. Na última Pesquisa Focus, a mediana das projeções apontava para uma convergência da inflação para 4,5% só em 2019.
Ontem, o dado acima do esperado do IGP-M de junho reforçou a leitura de que o BC não tem espaço para cortar a taxa básica de juros no curto prazo e contribuiu para a alta das taxas dos contratos futuros de juros de curto prazo. O DI para janeiro de 2017 avançou de 13,84% para 13,88%.